Lições da história econômica

Por Jorge Félix, para o Valor, de São Paulo
19/09/2008
 

 

Lições da história econômica

 

Resultado de mais de 20 anos de pesquisa, o trabalho de William Summerhill, professor da Universidade da Califórnia-Los Angeles (Ucla), sobre as ferrovias brasileiras tornou-se um clássico para a análise do desenvolvimento econômico. Summerhill foi o único a se embrenhar em arquivo morto do prédio do Ministério da Fazenda, no centro do Rio, para levantar dados para sua tese. Em visita ao Brasil, a convite da USP, o brasilianista, de 45 anos, comentou (em excelente português) lições da história econômica para este momento da economia brasileira. Nesta entrevista, Summerhilll criticou a criação de uma estatal para exploração das reservas de petróleo da "camada pré-sal": "É um passo para trás."

Sergio Zacchi / Valor

O economista William Summerhill: "O Brasil chegou ao século XX sem ter um programa de educação pública básica eficiente. Estragou o doce. Agora está correndo atrás"

 

Valor: Que lição a história econômica pode dar neste momento de discussão sobre o pré-sal?

 

William Summerhill: Não existe uma história única. Na África, observamos um surto econômico com a descoberta de um recurso natural ou com a valorização rápida no mercado internacional de um recurso determinado. A resposta foi o caos político em alguns lugares. Mas isso é a África. Nos Estados Unidos, no início do século XX, houve uma súbita expansão da produção de petróleo. Não se criou uma "maldição de recursos naturais". Na Holanda e em vários outros países, quando descobriram jazidas, a estabilidade democrática não foi afetada. Isso indica que o problema não é a tão falada "maldição", mas a interseção da descoberta com as instituições políticas. Acredito que a democracia no Brasil resiste a qualquer tipo de resultado que vimos no caso dos diamantes da África.

 

Valor: No Império, d. Pedro I gastou grande quantidade de ouro em guerras contra a Argentina. Como o Brasil poderia usar melhor seus recursos naturais?

 

Summerhill: Talvez não exista um modelo ideal. Mas o modelo da Petrobras é quase ideal: uma estatal, hoje muito eficiente, permitindo-se concorrência. É como se ensina na sala de aula: quando você tem empresas, a situação competitiva levará à eficiência. Mexer nesse modelo cria certa preocupação. Quais são as alternativas? Olhando para a América Latina, você tem a Pemex, que sofre de baixa produtividade porque não permite concorrência na exploração e no refino. Estatal pura. Lá, a gasolina não é barata e a Pemex criou ainda uma máquina de empregos para fins políticos. Pior é o caso da Venezuela. A produção vem caindo. Não há investimento. Estão usando os recursos para os programas sociais, tudo bem, mas são programas políticos.

 

Valor: A criação de uma estatal para evitar, como disse o presidente Lula, que "seis empresas estrangeiras" dominem a exploração desses recursos é recomendável?

 

Summerhill: Acho um passo para trás. Há maneiras de garantir que empresas, tanto estrangeiras como nacionais, não estabeleçam monopólio. É o modelo da Petrobras, com bastante concorrência, mesmo sem as "seis empresas". Criar um monopólio, possivelmente duplicando a dívida pública, creio que vá custar muito. Em vez de pendurar a conta no investidor, vai pendurar a conta no contribuinte. Deixará o Estado sem recursos para investir em áreas sociais e abrirá um grande espaço para interferências políticas de toda ordem. Até mesmo corrupção. E não distribui oportunidades sociais. Quero dizer que esse problema existe em todas as democracias. Não é bom entregar para a classe política mais recursos para comprar apoio político e uma estatal como esta corre esse risco. Enfraquece a democracia e a questão hoje na América Latina é a qualidade da democracia.

 

Valor: Esse modelo, como afirmam alguns analistas, significaria o enfraquecimento da Petrobras?

 

Summerhill: Sim. Seria, de certa forma, um calote. Embora tenhamos que ver se os acionistas da Petrobras algum dia receberam do governo a promessa de que nunca haveria um outro modelo de exploração de petróleo no país. Um dos cenários que os investidores imaginaram, certamente, foi que a empresa seria proprietária de novas reservas.

 

Valor: E voltando às lições da história...

 

Summerhill: No Segundo Império, um dos modelos adotados foi dar um subsídio ao investidor em estradas de ferro. Em alguns casos, mesmo assim, não se obteve sucesso. O governo, então, construiu. O maior exemplo foi a Estrada de Ferro D. Pedro II. Esse modelo teve um impacto econômico muito grande em função do rápido avanço da tecnologia, da redução do custo de transporte e da geração de um benefício enorme para a economia brasileira. Mesmo sendo estatal. Hoje em dia é diferente. O avanço tecnológico é mais lento. É passo a passo. Não é súbito. As estatais que cresceram depois da Segunda Guerra tiveram um custo econômico maior do que o benefício.

 

Valor: Na busca do desenvolvimento econômico, quais são os erros crônicos no Brasil?

 

Summerhill: O primeiro é empregar o Estado para resolver problemas sem estabelecer restrições que garantam que mercados que estão funcionando não serão destruídos. Há áreas nas quais o mercado não funciona bem. Nesse caso, existe papel para o Estado. Mas não significa que o Estado deva entrar dominando tudo e começar a mexer com outros mercados. Outra questão é a ausência de uma filosofia administrativa focada em descobrir como fazer para formar pessoal qualificado e liberar, incentivar esse capital humano para inovar, em vez de optar pelo paternalismo.

 

Valor: Como o sr. avalia as instituições no Brasil de hoje?

 

Summerhill: O que o Brasil precisava, desde o século XIX, era de uma reforma econômica que estabelecesse de maneira transparente as regras econômicas. Isso hoje tomaria a forma de uma "segunda geração" de reformas. Na década de 1990, foi difícil, ocorreu no nível macroeconômico. Agora faltam reformas imprescindíveis, como a fiscal e a trabalhista. O Brasil pegou a onda das commodities, está "mandando bem", exportando muito. Isso ajudou com a inflação e a taxa de juros. O problema é o que vai acontecer quando essa onda passar. É preciso fazer um mercado mais eficiente. Essas reformas construiriam uma plataforma mais alta, para quando passasse essa onda, para que o Brasil pousasse em outro nível. Há o risco de que a aterrissagem se dê no mesmo lugar.

 

Valor: Qual seria o papel e o tamanho ideal do Estado?

 

Summerhill: Não posso dizer que o Estado deva ter tamanho 10 ou 9. Cada contexto tem suas características. O Estado deveria se preocupar com a atração de investimento. Não só investimento como captação externa, mas dentro de casa também. Um Estado que incentiva a educação. Nesse ponto, o Bolsa Família tem um potencial. A formação de capital humano é emergencial no Brasil. É importante para a economia e para a redução da desigualdade social. Outra coisa que o Brasil fez errado no passado: investiu pesadamente na educação, mas em programas de alta tecnologia - como se tivesse na mente um modelo de liderança de algum setor - e negligenciou a educação básica.

 

Valor: Criou-se mais desigualdade, apesar do investimento em educação?

 

Summerhill: Claro. Nos Estados Unidos, historicamente, isso foi resolvido com um sufrágio maior [pela via eleitoral], já no início do século XIX. O que o eleitor exigia era boa escola. É isso que o eleitor tem de exigir do Estado. O que as pessoas queriam era oportunidade para educar seus filhos. Tudo foi resultado de pressões da democracia. Foi escolha do povo ter o governo desempenhando aquele papel.

 

Valor: Só a educação talvez não explique a desigualdade.

 

Summerhill: Os economistas americanos chamam o século XX de "século do capital humano". A educação passou a ser o determinante do retorno alto. O Brasil chegou ao século XX sem ter um programa de educação pública básica eficiente. Estragou o doce. Agora está correndo atrás. Outra fonte [de explicação] é a escravidão, sem dúvida. Tem também a falta de integração de mercados, o fato de o Brasil ser retardatário na implantação de ferrovias.

 

Valor: Qual é o peso do processo industrial nessa desigualdade?

 

Summerhill: Favoreceu muito uma parcela [da população]. Especialmente a política de Vargas. O chamado "capitalismo brasileiro" foi populista. Criou indústria. A curto prazo, foi melhor para acelerar a taxa de industrialização. Mas criou uma aristocracia de mão-de-obra. O Estado privilegiou determinados trabalhadores. Já tinha lá o sindicato para eles, não sem ligação com o governo. Mas isso não se financia. Alguém teve de pagar essa conta. Pagou aquele que sofre com a inflação ou com a falta de recursos públicos que deveriam ter sido aplicados na educação. Se o governo tivesse conseguido desenvolver um setor, muito avançado, que depois iria se sustentar, muito bem. Não houve sequer um protecionismo estratégico para depois pular para a frente. A era Vargas durou muito. E provocou desigualdade.